quarta-feira, 1 de julho de 2026

Centenário da Morte do Conde de Moreira Lima


foto do Conde de Moreira Lima
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Em julho, comemora-se o centenário de morte de Joaquim José Moreira Lima Junior, o Conde de Moreira Lima, o maior benfeitor da cidade de Lorena.

Falar da história dessaa cidade sem citar o Conde é contar uma história incompleta.

Falar do Conde de Moreira Lima  sem falar em benfeitorias, benevolência, investimento, empreendedorismo,  religiosidade, serviços públicos prestados à cidade  é contar uma história qualquer.

A vida do Conde está diretamente ligada à história da cidade, uma relação de amor e dedicação ao chão onde nasceu e viveu toda a vida. Vida essa que passou por fases importantes na História do Brasil:

- O auge e declínio do Segundo Reinado, testemunhando transformações fundamentais,

- Apogeu e crise do Ciclo do Café e à Industrialização incipiente no Vale, sendo pioneiro e visionário com a criação do Engenho Central, que contava com um ramal ferroviário próprio, já com um pé na tecnologia da época. 

- As transições das leis abolicionistas (Ventre Livre, Sexagenários, Lei Eusébio de Queiroz e Lei Áurea) e toda a insatisfação gerada pelos proprietários rurais,

- A Guerra do Paraguai.

- A transição do Império para a República, onde o prestígio dos títulos nobliárquicos foram substituídos por outros arranjos políticos, parte de um período dominado por elites agrárias  que não abalou sua proximidade com a família Imperial e mesmo assim, continuou a realizar obras sociais e filantrópicas. 

Uma história que ele fez acontecer e que, por desejo próprio, nunca quis ser esquecido pela terra a que tanto se dedicou, se ajustando às fases que aconteciam historicamente.

Vindo de uma abastada família, filho de pai português e mãe lorenense, recebeu uma educação compatível com as elites da época, Joaquim José Moreira Lima Junior logo se mostra inclinado aos negócios e, com inteligência, perpetua e amplia a fortuna da família trabalhando como investidor, fazendo às vezes de banqueiro, fazendo empréstimos às famílias e fazendeiros da cidade:

- Bom administrador que gerenciou fazendas da região, homem de negócios que se tornou fiel companheiro da mãe após viuvez,

- Acumulou funções administrativas e militares na cidade, fazendo seu nome se tornar cada vez mais  respeitado, somado à  gentileza e fino trato com os quais se relacionava com as pessoas, sem distinção de classe.

Amigo pessoal do imperador Dom Pedro II, que recebeu em sua casa, o solar dos Moreira Lima, com pompas e  circunstâncias, evento registrado com grandes elogios  à riqueza e aos bons serviços oferecidos, feitos pela própria Princesa Isabel, que pode ser conferido em anotações de seu diário pessoal, objeto histórico parte do acervo do Museu Imperial de Petrópolis.

Amante das artes, os saraus no casarão do Conde, um costume nobre da época, eram considerados os mais concorridos pela  sociedade da então.

Nascido em Lorena-SP, a 11 de junho de 1842, filho de Joaquim José Moreira Lima e Carlota Leopoldina de Castro Lima (Viscondessa de Castro Lima - um dos raros casos de titularidade pós morte do patriarca da família).

Quinto filho do casal, curiosamente Junior, por ter o mesmo nome do pai, um diferencial para a época sem grandes explicações.

1861: Torna-se alferes, aos 19 anos,  secretário do 20º Batalhão da Guarda Nacional de Lorena.

1864: É promovido a major ajudante-de-ordens na Guarda Nacional.

1867: Integra o grupo fundador da Santa Casa de Misericórdia de Lorena, atuando como secretário e depois provedor por mais de 40 anos.

1º de março de 1874: Recebe o título de Barão de Moreira Lima, concedido por D. Pedro II.

1875: Inicia a construção do Santuário de São Benedito (inaugurado em 1884 com a presença do Imperador D. Pedro II, a Princesa Isabel e o marido, Conde D'Eu) em terreno doado pelo irmão. A inauguração foi um dos maiores eventos sociais de Lorena e da região. Curiosidade: a igreja de S. Benedito foi inaugurada com a imagem de Santo Antônio no altar mor, devido a um atraso de entrega da encomenda original. Seus restos mortais e de sua esposa jazem embaixo do altar-mor de acordo com seu testamento.

24 de outubro de 1879: Casa-se com sua sobrinha Risoleta de Castro Lima (sem filhos), por imposição do irmão mais velho, Antônio Moreira de Castro Lima, o Barão de Castro Lima; não seria de bom tom um homem da envergadura social e política do Conde seguir solteiro àquela altura da vida. Porém, a vida matrimonial do casal não era a mais exemplar. Segundo histórias não oficiais, o casamento arranjado, a diferença de idade, o temperamento do Conde, a paixão reprimida da sobrinha por outro nobre de inclinação política contrária a da família não colaboraram para a harmonia do casal. Risoleta, então, toma medidas drásticas , permitindo-se adoecer, até vir a falecer no Rio de Janeiro, de tuberculose, em 1895.

1881: Torna-se diretor da Sociedade Anônima Engenho Central de Lorena. Uma visão futurista com a mudança do enfoque econômico da região, passando da cafeicultura para a cana de açúcar. Essa Sociedade Anônima era composta por Joaquim José Moreira Lima Júnior, o Conde de Moreira Lima; pelo irmão deste, Antônio Moreira de Castro Lima, o Barão de Castro Lima e os sobrinhos de ambos, o Comendador Arlindo Braga e o Comendador Francisco de Paula Vivente de Azevedo, futuro Barão da Bocaina. Entre altos e baixos da produção, qualidade e escoamento do produto, questões financeiras, o Engenho encerra suas atividades em 1896.

1882: torna-se Oficial da Ordem da Rosa - Grau concedido a militares e civis por fidelidade ao Imperador e serviços ao Estado.

24 ou 28 de abril de 1883: Condecorado Visconde de Moreira Lima.

14 de janeiro de 1884: torna-se Comendador da Ordem de Cristo. Durante o Império, existiu a Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, concedida por D. Pedro I e D. Pedro II para serviços prestados ao Brasil.

Os muitos serviços prestados à Igreja naquela época marcavam o compromisso de uma família para com a religiosidade, mas também tinha um significativo propósito de status social. 

1886 - com a visita da Família Imperial ao casarão dos Moreira Lima , abre-se o Livro de Ouro para custeio da reforma da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade que conta com uma vultuosa contribuição da Viscondessa de Castro Lima, doação e ampla promoção do próprio Conde para que a sociedade local participasse com donativos que culminaram em uma rica obra encomendada a Ramos de Azevedo, entregue em 1890.

7 de maio de 1887: Recebe o título de Conde de Moreira Lima.

No Brasil Império, os títulos de nobreza não eram hereditários, eram vitalícios e concedidos por mérito ou serviços prestados ao Estado.

A concessão de títulos nobliárquicos (Barão, Visconde, Conde, Marquês e Duque) era uma preorrogativa exclusiva do Imperador.

Os cafeicultores conquistaram títulos de nobreza principalmente através de  mérito e prestígio econômico, e não por compra direta, embora a riqueza fosse um pré-requisito fundamental. O Imperador D. Pedro II concedia essas honrarias (como Barão e Visconde) para reconhecer serviços prestados ao Estado, fortalecer alianças políticas com a elite agrária e apaziguar fazendeiros em momentos de transição, como durante a abolição da escravidão.

15 de novembro de 1890: Recebe a Comenda da Ordem de São Gregório Magno do Papa Leão XIII, concedida para reconhecer serviços pessoais extraordinários prestados à Igreja Católica e à Santa Sé, além de premiar exemplos de vida cristã em diversas comunidades. 

Fundado oficialmente em 1890, o Colégio São Joaquim, se instala na cidade,  um incentivo certeiro do Conde de Moreira Lima sobre o quão importante era a vinda de uma instituição de ensino salesiano naquele momento histórico do País, fazendo de Lorena um pólo regional atrativo de educação de qualidade e renome.

1904: Mantém o Asilo São José, fundado por seu sobrinho José Vicente de Azevedo.

De 1912 até sua morte, foi principal esteio da Sociedade de São Vicente de Paula.

1922 - Na então capital da Brasil, Rio de Janeiro, começava a construção do mais icônico símbolo daquela cidade e do País: o Cristo Redentor, que terminou em 1931. 

2 de julho de 1926: Falece em Lorena-SP, aos 84 anos, vítima de um acidente com sua carruagem na passagem de nível no centro da cidade, que o deixa em condições de saúde delicadas, decorrentes da fratura exposta sofrida, que se arrasta por meses até sua morte. Curiosa ou propositalmente, pediu para que fosse cuidado no Asilo São José, fato inusitado devido sua importância social. Tal comportamento conferiu ao asilo um status diferente e exigiu uma adaptação necessária para atender o ilustre interno. Ainda assim, existem teorias de que sua morte pode ter sido arranjada (briga política) e não acidental.

Em testamento, doa sua imensa fortuna a instituições locais, fortuna essa que poderia sustentar a instituição hospitalar até os dias de hoje, tamanha vultuosidade do montante.

Após sua morte, o casarão, parte do espólio da Santa Casa de Lorena,  cumpre a decisão testamental de virar uma instituição de ensino: o Instituto Santa Carlota, voltado para a educação de meninas ricas brancas até  se tornar sede da secretaria municipal de Educação e, posteriormente, Cultura, prédio tombado pelo Condephaat em 15 de setembro de 1962, que enfrenta no momento um lento, arrastado e burocrático processo de restauro.

A vida do Conde também traz informações não confirmadas sobre seu caráter:

- Por trás de toda doçura e benevolência, existia um homem de hábitos curiosos e difícil temperamento; 

- Um político favorável à monarquia, amigo pessoal do Imperador, que pode ter causado dissabores políticos locais numa época de transição para a República.

- Posicionamento anti escravagista, embora sem fontes oficiais, possa ser interpretado pelas benfeitorias feitas em favor aos escravos livres: a construção da Igreja Nossa Senhora do Rosário e o Asilo São José para acolher os pretos alforriados. O casarão da família não possui senzalas e fala-se de um antigo funcionário, ex-escravo que teria trabalhado com o Conde até o fim da vida como forma de gratidão.

Apesar da importância do Senhor Joaquim José Moreira Lima Junior, o Conde de Moreira Lima, maior benfeitor e mola propulsora do progresso de Lorena, ainda existem poucos registros oficiais de todos seus feitos e, principalmente, da sua vida social, exceto alguns poucos jornais da época caso ainda hajam exemplares arquivados.

Talvez, sem os incentivos do Conde, Lorena poderia não ter atingido o desenvolvimento que tem hoje  e seria mais uma pequenina cidade esquecida na região do fundo do Vale do Paraíba, apesar de sua localização geográfica estratégica entre as principais cidades do país.

É impossível negar a importância desse grande lorenense e sua dedicação à cidade nas mais diversas áreas.

Que a cidade faça valer toda essa dedicação e nunca deixe apagar a história de seu mais ilustre e importante filho, assim como ele desejou e tanto realizou por isso.


Fontes: IEV, Wikipédia, Site Oficial da Prefeitura Municipal de Lorena, FUNSAI (Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga), Site do Museu Vicente de Azevedo, Blog do Diego Amaro, O Lorenense, Almanaque Urupês, Blog Nos passos do Imperador, Blog Os Lorenas, Mapa das Organizações da Sociedade Civil (OSC), Voluntarios.com.br, FamilySearch, Parentesco.com.br