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| Imagem gerada por IA |
Você já se atentou ao quanto usamos figurativamente os animais em nossas falas cotidianas?
Não importa a situação: seja na comparação, na associação, num xingamento ou num elogio, sempre utilizamos os animais como referência, como se identificássemos ações e comportamentos desses bichos em outra pessoa ou em nós mesmos, independente da origem do animal.
Quando fazemos isso, estamos humanizando os animais ou transformando as pessoas em bichos?
E de onde vem esse comportamento? Tradição europeia trazida pela colonização?
Herança indígena ou influência dos povos africanos escravizados? Simplicidade da língua? Superstição?
Quando falo da nossa base de miscigenação de povos, é para citar exemplos como animais que não são da nossa fauna: "Fulano é valente como um leão" ou "Fulana é esquisita como uma marmota".
Um animal africano e outro europeu, já que os indígenas podem ter influenciado com animais que aqui já existem, já que são os donos originais desta terra.
Atribuir perspicácia, altivez, foco, força, valentia, coragem, determinação, beleza, graça, fofura e tantos outros adjetivos torna-se mais firme quando os emprestamos de muitos dos animais conhecidos por essas mesmas características.
Ser forte como um touro, delicado como um beija-flor, tão repulsivo quanto uma cobra, fofo como um panda são apenas alguns dos exemplos que podemos citar.
Curiosamente, existe uma influência e uma linguagem bem machista nessas nomeações quando se direcionam às mulheres para diminuí-las.
Apesar de os machos das espécies animais serem os mais coloridos e espalhafatosos, cabendo a alguns a tarefa de cuidar do ninho e da ninhada, ainda assim prevalece a orientação sobre algumas fêmeas que não são elegantes.
Chamar uma mulher de vaca, galinha ou piranha, desfazer da autoestima delas chamando-a de baleia, por exemplo, alimenta um velho mecanismo de superioridade.
Os xingamentos invadem o campo da violência verbal e se tornam preconceito estrutural quando se chama um homem de viado (forma corrompida de veado) ou se agridem pessoas negras comparando-as a macacos.
Nesse contexto de preconceito, as fêmeas de alguns animais carregam significados mais pejorativos que os machos da mesma espécie: cavalo/égua, touro/vaca, galo/galinha, reforçando um patriarcado dominante.
As ofensas gerais continuam quando se chama alguém de rato, porco ou besta, por exemplo, na mesma proporção em que se elogia: touro, formiga ou gato.
Nem a política fica de fora: gado, papagaio, cobra e raposa estão aí na boca de muitos.
Agir como um cão sem dono é contrário à sua fama de fiel.
A coruja é cega, mas é sábia.
O urubu é sinal de mau agouro, mesmo sendo um faxineiro da natureza.
Não esqueçamos de algumas expressões: "ficar com pulga atrás da orelha", tempos de "vacas gordas" ou de "vacas magras", "pagar o pato", de ter cuidado com pessoas que são "cobras criadas".
E todas as características humanas parecem ter seu animal (anfíbio, réptil, inseto, mamífero ou microrganismo): a perereca associada ao órgão genital feminino, chorar lágrimas de crocodilo, ser perigoso como um escorpião, ser ágil como um leopardo, ficar parado feito uma ameba, ter a delicadeza de um rinoceronte ou a inteligência de um golfinho, da passividade de uma capivara à ferocidade de um tubarão.
E, ao mesmo tempo, que usamos todos eles como identificação de personalidades, somos tão traiçoeiros quanto uma cobra que muitas vezes acusamos o outro de ter um comportamento animal.
A gente não precisa ter visão de águia, memória de elefante ou ser inteligente igual a um chimpanzé para observar a riqueza da zoonímia figurativa de um texto sociolinguístico.
O animal que usamos para descrever o outro revela mais sobre a sociedade que criou a metáfora do que sobre o animal descrito.
Talvez o ser humano seja o único animal que inventou um zoológico para explicar os próprios semelhantes.

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