terça-feira, 11 de agosto de 2026

Zoo Particular!!!

Imagem gerada por IA

Você já se atentou ao quanto usamos figurativamente os animais em nossas falas cotidianas?

Não importa a situação: seja na comparação, na associação, num xingamento ou num elogio, sempre utilizamos os animais como referência, como se identificássemos ações e comportamentos desses bichos em outra pessoa ou em nós mesmos, independente da origem do animal. ​
Quando fazemos isso, estamos humanizando os animais ou transformando as pessoas em bichos?

E de onde vem esse comportamento? Tradição europeia trazida pela colonização?
Herança indígena ou influência dos povos africanos escravizados? Simplicidade da língua? Superstição? ​

Quando falo da nossa base de miscigenação de povos, é para citar exemplos como animais que não são da nossa fauna: "Fulano é valente como um leão" ou "Fulana é esquisita como uma marmota".

Um animal africano e outro europeu, já que os indígenas podem ter influenciado com animais que aqui já existem, já que são os donos originais desta terra. ​

Atribuir perspicácia, altivez, foco, força, valentia, coragem, determinação, beleza, graça, fofura e tantos outros adjetivos torna-se mais firme quando os emprestamos de muitos dos animais conhecidos por essas mesmas características.

Ser forte como um touro, delicado como um beija-flor, tão repulsivo quanto uma cobra, fofo como um panda são apenas alguns dos exemplos que podemos citar. ​


Curiosamente, existe uma influência e uma linguagem bem machista nessas nomeações quando se direcionam às mulheres para diminuí-las.

Apesar de os machos das espécies animais serem os mais coloridos e espalhafatosos, cabendo a alguns a tarefa de cuidar do ninho e da ninhada, ainda assim prevalece a orientação sobre algumas fêmeas que não são elegantes.

Chamar uma mulher de vaca, galinha ou piranha, desfazer da autoestima delas chamando-a de baleia, por exemplo, alimenta um velho mecanismo de superioridade. ​

Os xingamentos invadem o campo da violência verbal e se tornam preconceito estrutural quando se chama um homem de viado (forma corrompida de veado) ou se agridem pessoas negras comparando-as a macacos. ​

Nesse contexto de preconceito, as fêmeas de alguns animais carregam significados mais pejorativos que os machos da mesma espécie: cavalo/égua, touro/vaca, galo/galinha, reforçando um patriarcado dominante. ​

As ofensas gerais continuam quando se chama alguém de rato, porco ou besta, por exemplo, na mesma proporção em que se elogia: touro, formiga ou gato. ​
Nem a política fica de fora: gado, papagaio, cobra e raposa estão aí na boca de muitos.

Agir como um cão sem dono é contrário à sua fama de fiel. A coruja é cega, mas é sábia. O urubu é sinal de mau agouro, mesmo sendo um faxineiro da natureza. ​

Não esqueçamos de algumas expressões: "ficar com pulga atrás da orelha", tempos de "vacas gordas" ou de "vacas magras", "pagar o pato", de ter cuidado com pessoas que são "cobras criadas".

E todas as características humanas parecem ter seu animal (anfíbio, réptil, inseto, mamífero ou microrganismo): a perereca associada ao órgão genital feminino, chorar lágrimas de crocodilo, ser perigoso como um escorpião, ser ágil como um leopardo, ficar parado feito uma ameba, ter a delicadeza de um rinoceronte ou a inteligência de um golfinho, da passividade de uma capivara à ferocidade de um tubarão.

E, ao mesmo tempo, que usamos todos eles como identificação de personalidades, somos tão traiçoeiros quanto uma cobra que muitas vezes acusamos o outro de ter um comportamento animal. ​

A gente não precisa ter visão de águia, memória de elefante ou ser inteligente igual a um chimpanzé para observar a riqueza da zoonímia figurativa de um texto sociolinguístico. ​

O animal que usamos para descrever o outro revela mais sobre a sociedade que criou a metáfora do que sobre o animal descrito. ​

Talvez o ser humano seja o único animal que inventou um zoológico para explicar os próprios semelhantes.

Criou até mesmo um jogo de azar. ​
E você? Qual é a sua comparação favorita?
Deixe um comentário. ​

Nos vemos, nos lemos!